Entenda o debate em torno da “pílula do câncer”

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Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

A fosfoetanolamina é um composto químico orgânico que mais popularmente ficou conhecido, na mídia, como a “pílula do câncer”, já que foi anunciada como tendo propriedades medicinais que poderiam, em tese, ajudar a combater alguns tipos de tumores. Na semana que passou, após o Governo Federal sancionar lei que libera uso e comercialização da fosfoetanolamina, órgãos como a Associação Médica Brasileira (AMB) se pronunciaram de forma crítica à decisão. Em nota, a instituição afirma que a lei “coloca em risco a saúde dos pacientes com câncer e ignora por completo métodos científicos e seguros para aprovação de medicamentos, além de desvalorizar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão do próprio governo”. Já o Conselho Federal de Medicina (CFM), também em nota oficial, recomenda aos médicos brasileiros “a não prescreverem a fosfoetanolamina sintética para tratamento de câncer até que a eficácia e a segurança da substância sejam reconhecidas por evidências científicas”.

Para explicar a origem, o uso e os impactos da substância diante desse tema que ganhou ampla repercussão na mídia, o Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, que desenvolve sua linha de pesquisa na área de controle da proliferação celular e câncer, concedeu esta entrevista ao Conectar a fim de esclarecer os principais pontos em torno da fosfoetanolamina. Acompanhe.

Conectar: A fosfoetanolamina – ou pílula do câncer – tem sido pauta recorrente dos principais veículos de comunicação. Como essa história começou?
Wagner Montor: Essa história chegou à grande mídia a partir do momento em que a USP de São Carlos baixou uma portaria proibindo a produção e a distribuição da fosfoetanolamina a pacientes com câncer, o que vinha acontecendo aparentemente desde a década de 90. Pacientes descontentes com a resolução começaram a pressionar a universidade, fazendo com que houvesse uma sucessão de decisões judiciais que, em determinados momentos, a obrigou, por liminares, a continuar com a produção e a distribuição e, em outras ocasiões, a suspendê-las. Não se sabe ao certo se antes desta portaria era de conhecimento da universidade ou não que existia a distribuição aos pacientes, mas a partir de um momento que coincide com a aposentadoria do pesquisador principal, decidiu-se finalmente – e acertadamente –, que isto não poderia acontecer, por inúmeros motivos, como a falta de registro do “medicamento”, a não adequação da infraestrutura da universidade para este fim e a necessidade de estudos padronizados pré-clínicos e clínicos para caracterizar a possível ação e efeitos adversos da preparação.

Conectar: Em quais evidências o grupo de pesquisadores se baseou para justificar o uso?
Wagner Montor: O grupo tem artigos reportando dados experimentais com a molécula a partir de 2011, mas nada que chame muito a atenção, tanto que o impacto das revistas em que foram publicados não é alto. Citam ainda que testes clínicos já foram feitos em parceria com um hospital em Jaú (SP) na década de 90, porém não apresentam dados desse período e o hospital nega a participação, mas parece que pelo interior de São Paulo muitos pacientes usaram e o depoimento deles é o que fomentou esta polêmica. No entanto, entendo que não é assim que se faz ciência e depoimentos dessa natureza têm pouco ou nenhum valor. Há etapas muito bem definidas e rigidamente controladas para se levar uma molécula da bancada do laboratório até a prateleira da farmácia e explicitamente essas etapas não foram cumpridas.

Conectar: Por que temos visto este desencontro entre Ciência e Política?
Wagner Montor: Ao mesmo tempo que a Ciência sabe exatamente o que fazer e quais etapas devem ser cumpridas para análise do potencial terapêutico da molécula, o que leva bastante tempo, devido à forte comoção e pressão popular, o que é compreensível frente a uma doença associada à significativa carga emocional, foi sancionada uma lei, na semana passada, aprovando a produção, distribuição e uso da preparação por todos os pacientes que apresentem um laudo de câncer e assinem um termo de consentimento, em uma situação de exceção, enquanto prosseguem os estudos, abrindo um precedente que fragiliza a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e contraria publicamente os laudos técnicos, que pedem cautela, uma vez que os relatórios iniciais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostram que, além de não haver efeito contra o câncer in vitro, nos modelos testados até então, a composição das cápsulas é diferente do que vinha sendo anunciado. Do ponto de vista técnico, muitos estudos precisariam ainda ser feitos e resultados promissores precisariam ser obtidos antes de uma decisão como esta.

Conectar: Quais os danos potenciais desta situação?
Wagner Montor: O mais evidente de todos é o fato de pacientes deixarem de fazer o tratamento correto em busca de uma alternativa milagrosa que não tem se mostrado verdadeira, pelo menos até o momento. Existe ainda a possibilidade de a molécula ter o efeito contrário para alguns tipos de tumores, como foi descrito em um artigo do PNAS em 1979, em que fosfoetanolamina se mostrou ser um promotor de proliferação para células de câncer de mama. Por mais que os testes de toxicidade feitos não tenham demonstrado risco imediato no uso, são muitas outras situações que precisam ser analisadas para que a população não seja colocada em risco. Liberar o uso de um potencial medicamento desta maneira, não só sem testes, mas pior, com decisão tomada ignorando testes negativos, abre um precedente perigoso e coloca o Brasil em destaque no cenário mundial. Duas das principais revistas científicas internacionais, a Science e a Nature, publicaram matérias nos últimos dias, discutindo a decisão política que suplantou a decisão científica, abrindo esta discussão acalorada que temos observado.

Conectar: Quais são os próximos passos que provavelmente iremos observar?
Wagner Montor: O MCTI havia anunciado a liberação de 10 milhões de reais para pesquisa em dois anos. Embora os resultados iniciais sejam negativos, os testes continuam. Considerando a atual situação econômica do país e a diminuição de recursos para pesquisa, alocar um volume tão grande para uma única frente, em meio a toda a situação que estamos vivendo com zika e microcefalia, já seria polêmico. Custear produção e distribuição, liberando o uso mesmo antes de conclusões positivas, chamou a atenção de todos. Provavelmente, veremos a continuidade da discussão jurídica a respeito desta liberação, por ações no Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos dias.

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 85, em 19/4/2016. Assine nossa newsletter: www.fcmsantacasasp.edu.br.

Fosfoetanolamina: STF determina suspensão de fornecimento

Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Wagner Montor, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, foi um dos entrevistados em reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, publicada em 5/4, sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender a distribuição de pílulas de fosfoetanolamina pela Universidade de São Paulo.

A medida foi tomada depois de um pedido da USP contra a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que havia permitido o fornecimento da pílula a pacientes com câncer.

Confira mais informações desta matéria com o docente da FCMSCSP no site do Estadão.

Passar álcool em gel nas mãos ou lavá-las: o que é mais eficaz

Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

Quantos objetos você tocou nesta última hora? Quantas vezes passou as mãos nos olhos ou na boca? Espirrou ou tossiu? É, se pararmos para analisar, são inúmeras as bactérias, vírus e fungos  com os quais podemos  entrar em contato pelo simples toque das mãos. Mas, afinal, o álcool gel limpa tanto quanto lavar as mãos?  “Do ponto de vista de eliminação de microorganismos patogênicos, sim, desde que as mãos não apresentem sujidades aparentes  que possam impedir o espalhamento e ação adequados do gel”, explica o Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, que trabalhou com controle de infecções durante seu pós-doutorado nos EUA.

A adequada higienização das mãos, acrescenta o Dr. Montor, pode diminuir a transmissão de uma série de doenças, dentre as quais infecções respiratórias, como gripe, infecções intestinais, hepatites, conjuntivite e diversas enfermidades. Por isso, no dia a dia, a recomendação é lavar as mãos sempre que possível, principalmente nas situações mais óbvias: antes de manipular alimentos; comer; tocar mucosas como olhos, nariz e boca; antes e após ir ao banheiro; entre outras. “O álcool gel oferece uma comodidade extra, porque pode ser transportado em pequenos frascos em bolsas e mochilas e pode ser utilizado sem água. O problema do uso constante do álcool gel é o ressecamento das mãos e possíveis alergias a componentes da fórmula. Existem formulações glicerinadas no mercado, que evitam o ressecamento, mas havendo água e sabonete disponíveis, lavar as mãos é o ideal, com a utilização subsequente de álcool gel ou não”, indica.

Sabonete comum ou antisséptico?
Quanto a essa questão, o professor esclarece que, nas atividades diárias, lavar as mãos com água e sabonete comum costuma ser suficiente para a população geral. Para profissionais que realizam, por exemplo, procedimentos médicos e laboratoriais ou preparo de alimentos ou medicamentos, medidas específicas de higienização das mãos, podem ser adotadas, incluindo álcool gel e sabonetes antissépticos. “Sabonetes antissépticos, quando usados adequadamente, eliminam mais de 90% dos microorganismos, em testes padronizados, onde microorganismos em uma escala crescente de resistência são utilizados. Se comparados aos sabonetes comuns, apresentam composição que garante maior eliminação destes microorganismos mais resistentes e têm ainda efeito residual, deixando as mãos protegidas por mais tempo”, complementa o Dr. Montor.

Existe também outra questão relevante sobre o tema, de acordo com o professor: para alguns indivíduos, alguns sabonetes antissépticos podem causar alergia, além do que o uso frequente pode eliminar bactérias não-patogênicas que são benéficas, principalmente quando utilizados em áreas maiores, como no banho. Esta é uma questão relevante e discutida principalmente por dermatologistas.

Confira mais dicas do Dr. Wagner  Montor.

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 70, em 28/7/2015. Assine nossa newsletter: http://www.fcmsantacasasp.edu.br.

 

Tumores da mama: pesquisa aponta possibilidade de diagnóstico complementar

Dr. Wagner MontorUm estudo a respeito do diagnóstico complementar para tumores de mama esteve na pauta de um encontro realizado, recentemente, na Universidade de São Paulo (USP). Na oportunidade, o Dr. Wagner Montor, professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e ex-pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, proferiu palestra sobre o tema e falou sobre os avanços nesse campo de estudo.

Conheça mais detalhes a respeito deste assunto acessando o link da Agência Universitária de Notícias: clique aqui.