TDAH: compreenda como é feito o diagnóstico

Ana Luiza Navas

Ana Luiza Navas, coordenadora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio que se define por três características principais: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Por ser mais evidente em crianças na idade escolar, educadores e pais precisam estar atentos aos sinais do transtorno. Em entrevista ao Boletim Conectar, a Dra. Ana Luiza Navas, diretora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Déficit de Atenção, explica o que é o TDAH, como pode ser diagnosticado, além do importante papel do fonoaudiólogo aos escolares com o transtorno.

Conectar: Como podemos definir o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?
Ana Luiza Navas: Trata-se de transtorno do neurodesenvolvimento de origem neurológica, uma alteração do funcionamento do cérebro, principalmente relacionado com o mecanismo de controle de atenção, o foco de atenção. E a hiperatividade, na maioria dos casos, é relacionada com esse transtorno.

Conectar: Como o TDAH pode ser diagnosticado?
Ana Luiza Navas: Uma das principais preocupações é não confundir o comportamento de uma criança que é apenas agitada, com o comportamento de uma criança hiperativa. Por isso, o diagnóstico deve ser feito por psiquiatras ou neuropediatras, com ajuda de psicólogos, que fazem avaliações e questionários para saber se essa criança realmente tem o nível de atenção e hiperatividade, que excede o que é encontrado em crianças normais. Esse é um comportamento que ocorre nas escolas, em casa, e em todos os ambientes que essa criança frequenta. Há crianças que somente são agitadas na escola, mas, quando chegam em casa, se mantêm tranquilas e atentas; isso não é característico do TDAH. Então, o ambiente as tornam mais agitadas. Já no déficit de atenção não, a criança tem esse comportamento em qualquer ambiente que ela frequenta.

Conectar: Podemos dizer que o TDAH é mais comum em crianças?
Ana Luiza Navas: Não, o que acontece é que a criança ainda está se desenvolvendo e os mecanismos de controle, tanto da atenção quanto do próprio comportamento, são mais evidentes na fase escolar. E esses mecanismos se tornam muito importantes na adolescência, principalmente quando a criança não tem acompanhamento. E quando se torna um adolescente, esse comportamento pode parecer exacerbado. Existem, entretanto, muitos adultos com déficit de atenção. Em razão da maturidade desse paciente, podemos dispor de estratégias de controle para lidar com a desatenção e lidar com a hiperatividade, que é a característica do transtorno. Porém, notamos que alguns adultos são absolutamente descontrolados porque não têm acompanhamento, nem médico e nem do comportamento, e que acabam sendo vítimas desse transtorno. Há estimativas de que acidentes de trânsito acontecem mais frequentemente com a população que tem déficit de atenção, somando-se a outros tipos mais comuns de acidentes, como por exemplo, aqueles causados pelo esquecimento do fogão com a chama acesa.

Conectar: Sabemos que pessoas com TDAH costumam ser agitadas, mas quais os sintomas para identificarmos isso?
Ana Luiza Navas: O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade tem três características principais. A primeira é a desatenção para as coisas mínimas, ou seja, uma dificuldade muito aparente de se manter o foco. A segunda é a hiperatividade, que corresponde a uma atividade comportamental bem maior do que simplesmente a pessoa ser agitada. Já a terceira característica é a impulsividade. Quem tem TDAH é agitado, desatento e impulsivo. E nós vemos isso em várias situações, principalmente na escola, onde esse comportamento é mais disruptivo. Existe uma série de características que são parte desse comportamento e que estão presentes em qualquer criança, claro. Mas, quando esse comportamento afeta o desempenho acadêmico, a vida escolar, o contato com outras crianças, ou na família, e por isso é preciso ser feito o acompanhamento especializado.

Conectar: Qual o tratamento mais indicado?
Ana Luiza Navas: Existem alguns medicamentos para crianças, jovens e adultos que são utilizados, justamente devido à existência de uma base neurológica. Esses medicamentos atuam nas funções e neurotransmissores que supostamente estão falhos e servem para controle da impulsividade, da hiperatividade e da desatenção. Além disso, é importante trabalhar para que a criança e o adolescente consigam controlar esses comportamentos. Algumas estratégias para melhorar esse controle são trabalhadas com o psicólogo, um profissional que analisa o caso de forma bem próxima, além da existência de linhas de terapia psicológica, cognitivo comportamental, que são recomendadas como tratamentos complementares ao remédio.

Conectar: Qual é o papel do fonoaudiólogo no tratamento do TDAH?
Ana Luiza Navas: Mesmo quando a criança faz uso de medicamento e do acompanhamento do psicólogo, ainda assim, existem muitos problemas na escola. Isso porque todo aprendizado depende da atenção e da memória, e a criança que tem déficit de atenção tem muita dificuldade no processo de alfabetização e no desenvolvimento dessas habilidades de leitura e escrita, de compreender um texto. Antes de compreender para ler, é necessário ter atenção, e quando não existe atenção, não existe compreensão. Isso se torna uma bola de neve que reflete no desenvolvimento acadêmico dessas crianças, adolescentes e no caso dos adultos, na universidade, o que, portanto, exige acompanhamento.

O fonoaudiólogo tem cada vez mais se envolvido nesse acompanhamento, que vai fortalecer as habilidades de linguagem, da comunicação oral. Já existem relatos de que a pessoa com déficit de atenção tem essa dificuldade por causa da impulsividade. Esse envolvimento do fonoaudiólogo é extremamente importante porque, sem isso, a pessoa com TDAH pode até tomar remédio, controlar o comportamento, mas ela não irá transferir isso para a situação de aprendizagem.

Conectar: Como seria a prática da atuação do fonoaudiólogo no tratamento de TDAH?
Ana Luiza Navas: O fonoaudiólogo trabalha, por exemplo, com o apoio para a compreensão e elaboração de texto, além de estratégias para usar melhor a atenção. Um relato muito comum de jovens universitários que tem déficit de atenção é de ler a questão de uma prova e responder algo completamente diferente. Isso porque ele leu, não prestou atenção, começou a responder e depois desviou a atenção para outro assunto e não respondeu o que estava sendo perguntado. É claro que não são todas as pessoas que têm esse comportamento de déficit de atenção, mas quem o tem, realmente apresenta mais dificuldade para elaborar um texto e se manter no foco da pergunta. O trabalho do fonoaudiólogo entra justamente nisso: desenvolver esses exercícios e contribuir com estratégias de como responder uma questão, usar a linguagem para melhorar e treinar um vocabulário específico.

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 86, em 19/4/2016. Assine nossa newsletter: www.fcmsantacasasp.edu.br.

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Dislexia: condição especial que precisa de atenção durante toda a vida

Dra. Ana Luiza Navas

Dra. Ana Luiza Navas

Albert Einstein, Orlando Bloom, Pablo Picasso, Steve Jobs, Steven Spielberg, Tom Cruise, Walt Disney, Will Smith e Whoopi Goldberg são alguns exemplos de personalidades diagnosticadas com dislexia. “Sendo um transtorno genético e hereditário de linguagem, a dislexia atinge, cerca de 4% da população mundial. Possivelmente, mais de 50% da população disléxica não foi diagnosticada. Muitos pais trazem os filhos para avaliação e começam a se identificar ao perceber o desempenho dos filhos nos testes fonoaudiológicos. E essa é uma condição que acompanha a pessoa por toda a sua vida. A terapia fonoaudiológica e o acompanhamento psicológico ajudam muito, mas é necessário criar estratégias para lidar com ela”, explica a Dra. Ana Luiza Navas, diretora e professora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro do Núcleo de Acessibilidade Institucional (NAI) da Faculdade.

Núcleo de Acessibilidade Institucional (NAI)
O Núcleo, constituído por uma comissão coordenada pela Dra. Wilze Laura Bruscato, psicóloga e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, assiste alunos com mobilidade reduzida, deficiências visuais, auditivas e condições como a dislexia, que se enquadra na mesma categoria dos Transtornos Específicos de Aprendizagem, Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), entre outros. “O núcleo analisa, atende e encaminha para diagnósticos os alunos que precisam de adaptações especiais para fazer o curso. É uma determinação do Ministério da Educação (MEC) que as Instituições de Ensino Superior tenham um núcleo, mas cada faculdade decide como vai receber e aplicar a assistência aos alunos, e quais serão contemplados”, completa a Dra. Ana Luiza.

Processo seletivo
Na FCMSCSP, ao se candidatar a um processo seletivo há como mencionar a necessidade de realizar a prova de acordo com a condição do candidato. “Por exemplo, em caso de dislexia, a prova pode ser realizada de forma oral ou o aluno pode solicitar o auxílio de um ledor para ler as questões da prova, além disso, esse aluno tem um tempo extra, em geral 25% a mais que o tempo normal, para fazer a prova e redação”, esclarece a Dra. Ana Luiza.
Para o processo seletivo do curso de Graduação em Medicina, realizado pela Fuvest, os candidatos recebem a mesma opção para fazer a prova. “No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), também existe essa possibilidade. Esse método se faz necessário, pois a dificuldade na leitura é parte do quadro clínico dos disléxicos, logo, eles têm certa desvantagem em perguntas, por exemplo, com um enunciado muito grande. Tivemos uma aluna que declarou o problema e contou com o auxílio de um ledor e na redação ela obteve mais tempo para redigir. Não é que não tenham conhecimento para responder, mas demoram mais tempo para ler”, complementa a Dra. Ana Luiza.

Acompanhamento durante o ano letivo
A Dra. Ana Luiza ressalta ainda que muitos alunos nem sabem que possuem dislexia. Há casos na Faculdade em que o aluno só soube de sua condição após enfrentar dificuldades para acompanhar o ritmo das aulas. Outros sabem e não mencionam por medo da reação das pessoas. “Em geral as pessoas disléxicas precisam de mais acompanhamento para a compreensão da leitura e escrita. No Ensino Superior, a demanda de leitura aumenta, por isso a taxa de evasão é grande quando não há o apoio institucional. Em alguns casos, a questão emocional interfere, podendo causar problemas de baixa autoestima. Quando a pessoa já vem de um ensino com acompanhamento realizado por um profissional, ela aprende a estabelecer estratégias de estudo e de armazenamento, o que ajuda, e muito, ao encarar uma faculdade”, detalha.

Quanto à adaptação para avaliações, segundo a professora, depende de cada prova, aluno, matéria e professor. “Apresentamos aos professores o diagnóstico e deixamos em aberto para que o aluno solicite, de acordo com sua necessidade, se precisará de prova oral ou mais tempo para fazer provas, gravar as aulas, receber o conteúdo antes da aula. Para os docentes, orientamos que eles não se apeguem aos erros ortográficos, se o conteúdo for contemplado, pois esse é um dos sinais da dislexia. A cada mudança de professores, nos preocupamos em passar as mesmas informações”, elucida a professora.

Confira mais informações sobre a vida profissional de uma pessoa com dislexia.

 

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 73, em 9/9/2015. Assine nossa newsletter: http://www.fcmsantacasasp.edu.br.

Fonoaudiologia FCMSCSP no CID Rio 2015

Juliana Ramos e Dra. Ana Luiza Navas

Juliana Ramos e Dra. Ana Luiza Navas

Nos dias 29 e 30/5, a Prof.ª Dra. Ana Luiza Navas, diretora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da FCMSCSP, esteve presente no 5º Congresso Internacional de Dislexia, no Rio de Janeiro (RJ). Com o lema #todomundopodeler, o evento apresentou debates sobre as formas de diagnóstico da dislexia, além das dificuldades que permeiam todo o percurso da aprendizagem da leitura.

Na ocasião, Juliana Rodrigues dos Santos Ramos, ex-aluna do Mestrado Profissional em Saúde da Comunicação Humana, foi premiada pelo trabalho “Apoio educacional a jovens e adultos com Transtornos Específicos de Aprendizagem e/ou Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) no Ensino Superior”, um dos três reconhecidos no congresso.

Professora de Fonoaudiologia da Faculdade participa de audiência pública no Rio de Janeiro

No dia 11 de setembro de 2012, a diretora do curso de Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, profa. Dra. Ana Luiza Navas, participou da audiência pública no Plenário Teotônio Vilella, da Câmara dos Vereadores do Estado do Rio de Janeiro, convocada pelo Vereador Tio Carlos.

A audiência teve como finalidade a discussão entre especialistas e poder executivo para a aplicação da lei número 5.416, que dispõe sobre as diretrizes a serem adotadas pelo Município para realizar a orientação a pais e professores sobre o Transtorno do Déficit de Atenção – TDAH.

A mesa de trabalho foi composta pela coordenadora de Saúde Escolar da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Aline Bressan; representante da Secretaria Municipal de Educação, Kátia Regina de Oliveira Rios; Iane Kestelman, presidente da Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA); Prof. Dr. Paulo Mattos (Psiquiatra – Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Profa. Dra. Ângela Alfano (Psicóloga – Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

Os especialistas presentes discorreram sobre pontos importantes a serem considerados na aplicação da lei. Entre estes, destaca-se a extensa produção científica na área que confirma a natureza neurofuncional e de base genética do TDAH, o comprometimento em várias dimensões da vida destas crianças e jovens, tanto do ponto de vista de interação social como do desempenho escolar.

A Dra. Ana Luiza Navas destacou a ausência de políticas públicas no Brasil que incluam estas crianças e jovens no ensino regular. “Centenas de países no mundo já garantem, por meio de suas políticas educacionais e de saúde, o devido apoio e reconhecimento de alunos com TDAH e Dislexia, para promover o pleno desenvolvimento de suas capacidades”, ressaltou.