Março também é mês da Endometriose

Prof.ª Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro, docente da FCMSCSP

Mês do dia da mulher marca luta contra doença exclusivamente feminina.

O mês de Março pode ser considerado a época mais feminina do ano: com o dia 08 de Março, comemoração do dia Internacional da Mulher e a celebração do mês da Endometriose, o mês que fecha o verão dá atenção especial à saúde e direito das brasileiras. Hoje, cerca de seis milhões de mulheres sofrem com a Endometriose no país, cerca de 10% da população feminina brasileira.

Pensando em nossas mulheres, o Conectar bateu um papo com a professora Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro, docente da FCMSCSP e referência nacional no assunto. Veja o que a professora falou sobre o tema e o que deve ser feito para melhorar o quadro da luta contra a Endometriose no Brasil:

1 – Conectar: Professora, o que encontramos na literatura especializada e em reportagens sobre a Endometriose é que, hoje, o tempo médio para o diagnóstico da Endometriose leva em média de 7 a 10 anos, um tempo considerável. Porque isso acontece e o que devemos fazer para reverter esse quadro?

Professora Helizabet: O panorama de diagnósticos no Brasil tem um tempo elevado devido à falta de atenção médica ao principal sintoma da Endometriose, a cólica menstrual. Na maioria dos casos, quando a mulher chega ao consultório do ginecologista com fortes cólicas menstruais o médico procura aliviar os sintomas sem uma investigação mais profunda. A atitude mais comum nesses casos é o uso contínuo de anticoncepcionais, que vão diminuir as dores da cólica, regular o fluxo e deixar o ciclo menstrual mais brando. Com essa melhora dos sintomas, a mulher irá fazer o uso prolongado do anticoncepcional até a hora do desejo da maternidade, e é nesse momento que o médico descobre o real problema da paciente. Ao não conseguir engravidar, é necessária uma investigação mais profunda, o que leva à descoberta da Endometriose.

2 – Conectar: O anticoncepcional, medicamento contestado por muitos movimentos Feministas e citado pela senhora na resposta anterior, pode ser considerado um vilão nesse caso?

Professora Helizabet: Na verdade, o vilão desse caso é o erro de diagnóstico e não o medicamento em si. Se o médico responsável por uma paciente dá atenção aos sintomas mais claros da Endometriose, como a cólica menstrual muito forte, dispareunia (dor durante ato sexual) e dores na região pélvica, por exemplo, ele irá identificar a doença e usar o anticoncepcional como um aliado no tratamento medicamentoso da doença, trabalhando diretamente no endométrio da mulher. Na minha opinião, o mais importante hoje é que médicos e mulheres estejam conscientes que o caminho mais importante para a luta contra a Endometriose é o diagnóstico, e que, só por meio de investigações pautadas no histórico clínico e nas queixas da paciente vamos ser capazes de reduzir o problema.

3 – Conectar: Professora, vimos que recentemente a atriz Lena Duhan retirou seu útero por conta da Endometriose. Em paralelo, há uma discussão muito grande em torno do direito das mulheres decidirem sobre procedimentos em seus corpos, o que leva a pergunta, quando é necessária a retirada do útero e quais os procedimentos alternativos a um método tão invasivo?

Professora Helizabet: Nesse caso é muito importante que o médico envolvido pense na mulher como um todo, ou seja, não adianta apenas resolver o problema clínico da paciente retirando o útero e deixar uma série de ‘sequelas’ psicológicas nessa mulher, principalmente para aquelas que ainda não foram mãe. Além desse fator, vale lembrar que a retirada do útero só é válida quando a Endometriose é no próprio órgão (adenomiose) e quando eu tenho Endometriose na região posterior do útero. Hoje, 68% da Endometriose profunda está nos ligamentos útero-sacros, o ligamento que sustenta o útero, ou seja, na maioria dos casos não é necessário um tratamento tão invasivo como a cirurgia. Como falamos no começo da resposta, mesmo que a doença esteja no útero da mulher e necessite de cirurgia, é necessário que seja levado em consideração o desejo daquela mulher em ser mãe, propondo métodos que permitam a gravidez e talvez uma cirurgia posterior: atualmente podemos utilizar um DIU de Levonorgestrel que irá tratar a adenomiose e seus sintomas nas mulheres que ainda não tem prole constituída e, com a melhora do quadro clínico, essa paciente será capaz de engravidar. Após o desejo da maternidade atendido, essa mãe poderá decidir se quer fazer um procedimento cirúrgico ou continuar um tratamento medicamentoso, mas lembre-se, quem decide isso é sua paciente!

Texto originalmente publicado no boletim Conectar, edição 124, em 9/3/2018. Assine nossa newsletter: http://www.fcmsantacasasp.edu.br. 

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Sobre Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
A Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) é uma instituição de ensino superior com mais de 50 anos de atividades. Tem como mantenedora a Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, que também incentiva a realização ou a participação em pesquisas nos âmbitos científico e técnico e estimula, pela promoção ou participação, estudos nas áreas médica, sanitária e social. Oferece cursos de graduação em Medicina, Enfermagem e Fonoaudiologia; graduação tecnológica em Radiologia e em Sistemas Biomédicos, além de diversos cursos de pós-graduação (especialização lato sensu, mestrado ou doutorado) e pós-doutorado.

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