Dr. Osmar Monte, vice-diretor da Faculdade, reflete sobre o papel do professor

Está na hora de “aprender a aprender”

*Por Dr. Osmar Monte

Poucas pessoas sabem, mas vestes talares, de uso característico pelos clérigos, têm sua origem nos trajes sacerdotais da antiga Roma. No ambiente acadêmico, fazem parte do cerimonial, sendo adotadas pelas universidades europeias a partir do século XIII, com o aparecimento da figura do reitor. Símbolo de poder e de posição hierárquica, as vestes talares têm o objetivo de destacar as pessoas que as utilizam das demais, dando-lhes especial representatividade. No Brasil, as vestes talares foram herança da Universidade de Coimbra. São formadas por 3 peças: a Samarra usada sobre a beca preta, o Capelo usado sobre a cabeça e o colar doutoral.

samarrasAs Samarras são específicas nas cores das áreas do conhecimento. A de cor branca é exclusiva do reitor e a dos doutores na cor de sua área do conhecimento. Essas são algumas das representações da importância dos acadêmicos. Aproveitamos esse momento para fazer uma reflexão: como definir a palavra professor?

Segundo o Dicionário Aurélio, professor é aquele que professa ou ensina uma ciência, arte ou técnica. Poderíamos dizer também que esse profissional, por conhecimento adquirido ou experiências vividas, pode ser mentor ou orientador para outras pessoas que desconhecem os fatos, acontecimentos ou os conhecimentos dos mais variados ramos da ciência.

O professor necessita conhecer profundamente o que leciona e os conhecimentos científicos básicos da matéria que ministra. Procurar bibliografias atualizadas, ler e estudar continuamente. A informação hoje fica ultrapassada em pouco tempo.

O conceito de professor sempre esteve associado ao saber. Na representação social, o bom acadêmico é aquele que domina o conteúdo e o sabe transmitir, e, ainda, para exercer sua função, é necessário que esteja em sala de aula, ou algum outro espaço físico que a substitua. Portanto, nesta visão, para adquirir conhecimentos, o aluno necessita frequentar uma escola e ter “bons” professores.

No entanto, com o avanço da tecnologia da informação, o conhecimento vem se desvinculando do espaço físico chamado escola e da figura do professor. Televisão, aberta ou por assinatura, vídeos, softwares multimídia e internet, estão levando a informação para além dos muros da escola.

Pensando na informática, em especial na web, podemos dizer que o conhecimento passou a morar na ponta dos dedos de qualquer cidadão. Esta transformação social leva-nos a repensar a atividade do professor.

A internet vem ocupando lugar de destaque entre as novas tecnologias, não sem motivos. Uma de suas características é a facilidade e rapidez com que a informação é disponibilizada. Uma pesquisa, pode ser divulgada logo após sua finalização, e milhares de pessoas terão acesso à ela logo em seguida. Na área médica, temos como resultado a possibilidade de um profissional saber hoje tudo o que foi descoberto ontem, sem ter que esperar a publicação da pesquisa em revistas especializadas, que, geralmente, possuem tiragens periódicas.

A liberdade de expressão que a internet oferece é outro fator a ser considerado. Se antes as editoras decidiam o que seria, ou não, publicado e divulgado, hoje, temos uma infinidade de artigos, poesias, contos e relatos de experiências disponíveis na web. Outra vantagem é que na rede não é necessário esperar nova edição para acrescentar ou atualizar dados, isto é feito de forma imediata, e no número de vezes necessário.

Na educação, a internet pode ser vista como uma poderosa ferramenta na mão de alunos e professores. No entanto, o acadêmico deve pensar diante de tão poderosa ferramenta, qual papel ele irá agora representar.

Poderíamos pensar que será apenas um papel coadjuvante, mas estaríamos errados, pois é passado ao professor o papel muito mais difícil que é o de ser orientador, o de guiar o aluno rumo ao conhecimento correto e isso depende de seu próprio conhecimento e experiência, fatos inatos da profissão.

Podemos afirmar que o conhecimento está em uma grande nuvem, podendo ser acessada por qualquer pessoa, mas a partir do momento que o aluno tem em suas mãos uma ampla fonte de informações, não cabe mais ao professor transmitir o que sabe, mas ajudá-lo a localizar o que precisa. Diante de tanto conteúdo é necessário que o estudante aprenda a distinguir o que é importante, necessário e tem valor, para que informações transformem-se em conhecimento. O aluno deve encontrar no professor o apoio para “aprender a aprender”.

A mudança de papel nem sempre é fácil ao professor, acostumado a oferecer um conteúdo por ele dominado. Na rede, o aluno pode descobrir assuntos não listados no currículo, obrigando o professor a “pesquisar e trazer a resposta na próxima aula” um número cada vez maior de vezes. O medo de o aluno ter mais informações que ele próprio assusta, pois ainda está acostumado a ser o dono do saber.

A educação, que antes hierarquizava conteúdos e exigia pré-requisitos, hoje precisa conviver com a não linearidade, pois atualmente o hyperlink dá ao aluno a possibilidade de decidir por quais caminhos navegar. A internet permite que a pessoa se envolva com determinado assunto em ritmo e interesse próprios. O conhecimento que antes vinha na sequência “família, escola, universidade”, agora pode partir de qualquer lugar como, por exemplo, pesquisar um animal e chegar a escritores, passando pelas páginas do habitat, habitantes, história, cultura e literatura. Além disso, o computador permite ter várias janelas de conhecimento abertas simultaneamente.

Desta forma, o conhecimento não será obtido na inércia de um aluno frente a um livro, mas na sua interação com textos, imagens, sons e vídeos. A interpretação individual sobre um tema é que o levará a decidir por qual hyperlink continuar navegando, fazendo com que necessidades e interesses individuais sejam considerados.

Neste momento, o professor também é aluno diante das novas tecnologias, tornando-se necessário que ele aprenda a utilizá-las para que possa fazer uso com seus alunos. Na realidade, o professor deve desaprender a ensinar para aprender a aprender junto de seus alunos.

Dr. Osmar Monte

O professor tem que saber o porquê da escolha da profissão. Ser esse profissional requer: dedicação, atenção constante aos pontos formativos de nossa conduta, domínio da vontade para dar o exemplo, maturidade emocional, fundamentação pedagógica das atitudes que toma, respeito aos pontos discordantes, não se esquecer das diferenças individuais, fazer do trabalho escolar uma unidade de ação e não um inoportuno individualismo de ação.

Agora refletimos sobre o que escreveu Sir Isaac Newton:

“Se vi mais longe, foi por me haver colocado nos ombros de gigantes”.
(Sir Isaac Newton, 1643-1727)

Enfim, o que é ser um professor? A resposta deve ser encontrada em cada um de nós.

*Dr. Osmar Monte é vice-diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

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Sobre Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
A Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) é uma instituição de ensino superior com mais de 50 anos de atividades. Tem como mantenedora a Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, que também incentiva a realização ou a participação em pesquisas nos âmbitos científico e técnico e estimula, pela promoção ou participação, estudos nas áreas médica, sanitária e social. Oferece cursos de graduação em Medicina, Enfermagem e Fonoaudiologia; graduação tecnológica em Radiologia e em Sistemas Biomédicos, além de diversos cursos de pós-graduação (especialização lato sensu, mestrado ou doutorado) e pós-doutorado.

One Response to Dr. Osmar Monte, vice-diretor da Faculdade, reflete sobre o papel do professor

  1. Janerother@ibest.com.br says:

    Excelente artigo!

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